O mito dos três efes

Quase como se fosse uma verdade inquestionável, há quem diga que Portugal é um país de “três efes” – Fátima, Futebol e Fado. A ideia surge frequentemente associada ao Estado Novo. Diz-se que Salazar uniu os portugueses em torno da religião católica, além de ter impulsionado o Futebol, sobretudo através das conquistas do Benfica e do Sporting, e de ter mantido uma relação próxima com Amália Rodrigues, maior expoente do Fado.

Para os historiadores Francisco Pinheiro e Ricardo Serrado, a ideia de que o “Portugal dos três efes” era uma marca do Estado Novo é um mito. Os dois autores consideram que se trata de uma criação recente, que nasceu no pós-25 de abril, com o objetivo de associar o país salazarista a estes três fenómenos sociais – a época da mudança de regime é, aliás, pródiga em trilogias, porque este foi também o momento de Democratizar, Descolonizar e Desenvolver.

“Essa ideia é evidentemente uma construção pós-25 de abril e que teve uma clara intenção de caracterizar negativamente, e de forma simplista, o Estado Novo. Recordo que a trilogia do Estado Novo era ‘Deus, Pátria, Família’ e no pós-25 de abril pretendeu-se conotar esse período com uma nova trilogia, a tal dos ‘três efes’, associando o país a Fátima, Futebol e Fado”, refere Francisco Pinheiro.

A origem da expressão é, no entanto, desconhecida. Há quem defenda que terá surgido pela primeira vez pouco depois da Revolução de Abril de 1974, num texto do escultor João Cutileiro, numa revista cultural. “Mas essa ideia ainda está por comprovar”, ressalva Francisco Pinheiro. A verdade é que pegou – e, fazendo sentido ou não, passou a ser uma forma de olhar e caraterizar o país que durante quatro décadas esteve governado por uma ditadura.

 

A “criaturinha” Amália e o desporto para amadores

Não se pense, contudo, que é descabido olhar para o Portugal de outrora, particularmente o Portugal do Estado Novo, à luz dos “três efes”. Para Ricardo Serrado, autor que se tem dedicado a estudar a forma como Salazar lidou com o Futebol, “os ‘três efes’ existem desde o século XIX e já eram expressões sociais e culturais muito fortes antes do Estado Novo”.

A tese do investigador é que não existiu da parte do regime salazarista uma estratégia declarada para impulsionar os três fenómenos e torná-los constantes no quotidiano das populações, pelo menos em relação ao Futebol e ao Fado – “há até registos de que Salazar tratava Amália Rodrigues como ‘criaturinha’ e que detestava Fado, por considerar popularucho”, refere.

No caso do Futebol, um dos fatores para Ricardo Serrado desconsiderar a hipótese de instrumentalização por parte do Estado Novo prende-se com a visão que o regime salazarista tinha do desporto. A ditadura pretendia que o desporto fosse uma forma de socialização, de lazer e que servisse também para colocar em prática os valores que perfilhava. Queria uma atividade sã, pura, sem competição. Em 1943, a profissionalização do desporto foi mesmo proibida por lei, algo que só mais tarde, já no início da década de 60, foi revogado.

Para Francisco Pinheiro, historiador e investigador na Universidade de Coimbra, “o futebol sempre foi olhado com alguma resistência pelas elites culturais e intelectuais portuguesas, avessas a fenómenos de massas e demasiadamente populares”. Apesar de haver elementos do regime que defendiam e promoviam o desporto, Salazar nunca pareceu interessado no fenómeno futebolístico.

Por isso, defende Ricardo Serrado, não existiu qualquer “clube do regime” nem, ao contrário do que se julga, Eusébio foi impedido de sair de Portugal por ser demasiado importante para o futebol português. “Na década de 60, Eusébio tinha um acordo com a Juventus, mas foi obrigado a ficar em Portugal, porque ainda não tinha cumprido o serviço militar obrigatório”, realça o investigador.

“Acredito que se não houvesse em Portugal um caso de sucesso, como foi o Benfica dos anos 1960, o futebol passaria completamente ao lado do regime”, considera João Nuno Coelho. Na perspetiva do sociólogo, foram as conquistas das equipas portuguesas que despertaram a atenção do Estado Novo e fizeram com que os elementos do regime engrandecessem os feitos e os valorizassem como sendo feitos do desporto português. Terá existido, por isso, “um aproveitamento”.

Para João Nuno Coelho, o facto de o Benfica ser bicampeão europeu, em 1961 e 1962, permitiu também reforçar as potencialidades das colónias, porque “Eusébio, Coluna, Costa Pereira e muitos outros jogadores dessa equipa eram oriundos de África”. Os triunfos futebolísticos acabaram por ajudar o regime a passar alguns valores e “a legitimar e validar esse último imperialismo português”.

 

Cardeal Cerejeira, Salazar e as relações entre Igreja e Estado

O caso de Fátima parece, contudo, ser diferente. Os três investigadores admitem que possa ter existido alguma apropriação do fenómeno religioso por parte do Estado Novo. “O regime estava assente na Igreja Católica e, nesse contexto, o ‘efe’ de Fátima foi impulsionado e alimentado”, diz Ricardo Serrado.

Para João Nuno Coelho, a proximidade entre Salazar e o Cardeal Cerejeira, Patriarca de Lisboa entre 1929 e 1973, terá contribuído para acentuar o caráter catolicista da ditadura. Além disso, segundo o sociólogo, “os próprios valores do regime e os valores católicos fizeram com que Fátima fosse muito próprio da ditadura salazarista – toda aquela ideia de ruralidade, de simplicidade, de bondade singela”.

Esta é, aliás, uma ideia também explorada pela historiadora Irene Flunser Pimentel, que publicou em 2010 uma biografia do Cardeal Cerejeira. Nela, a autora defende que existiu aproveitamento por parte de ambas as partes: o Estado Novo serviu-se da Igreja e a Igreja serviu-se do Estado Novo, para que ambos crescessem. No entanto, para Irene Pimentel, a relação entre os dois líderes de então – um do Estado e outro da Igreja Católica – nem sempre foi pacífica.

O atual Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, entende que é errado pensar-se que existiu uma total comunhão de interesses entre os dois. Até porque, apesar da relação de amizade que mantinha com Salazar, Cerejeira nunca concebeu um regime totalitarista nem via com bons olhos a Mocidade Portuguesa. “Embora se refiram a três grandes paixões dos portugueses, a trilogia dos ‘três efes’ é um mito, na medida em que simplifica demasiado as coisas”, considera.

Nos dias de hoje, esta parece ser mesmo a visão mais consensual: Portugal pode ter sido noutros tempos um país muito dedicado a Fátima, ao Futebol e a Fado, mas é redutor pensar-se que terá sido estratégia do Estado Novo criar, alimentar e difundir os “três efes”.

Considera que Portugal é o país dos “três efes”? Porquê?

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